Quilombo Mesquita: onde começa nossa história


Embora Cidade Ocidental celebre, em 2026, seus 50 anos de fundação, compreender a história do município exige um retorno de quase três séculos. Muito antes da criação da cidade, a região já era marcada pela presença do Quilombo Mesquita, uma das mais antigas comunidades quilombolas do Centro-Oeste brasileiro, cuja origem remonta ao ciclo do ouro, no século XVIII.

A descoberta de jazidas auríferas impulsionou a ocupação do interior de Goiás e deu origem a diversos povoados. Entre eles estava Santa Luzia — atual município de Luziânia — fundada em 1746 pelo bandeirante paulista Antônio Bueno de Azevedo. Naquele período, a economia mineradora dependia da mão de obra escravizada, que sustentava a exploração do ouro na região.

A origem do Quilombo Mesquita é cercada por diferentes versões preservadas pela tradição oral. A mais conhecida relata que, com o declínio da mineração, o capitão português Mesquita — também identificado em alguns relatos como o bandeirante José Corrêa de Mesquita — deixou Santa Luzia e destinou uma de suas fazendas a três mulheres negras alforriadas. Outra narrativa aponta que a propriedade, com cerca de 600 alqueires, teria pertencido inicialmente ao capitão Manuel Souza Vasquez e, posteriormente, sido vendida a João Mesquita, passando a ser conhecida como Fazenda Mesquita. Independentemente da versão, é nesse contexto que nasce a comunidade, transformada ao longo dos séculos em um símbolo de resistência, identidade e preservação cultural.

Em entrevista concedida à BBC News Brasil em julho de 2018, o pesquisador e morador Manoel Neres explica que, com o passar do tempo, outras pessoas passaram a integrar o quilombo, entre elas negros escravizados que fugiam em busca da liberdade. Muitos percorriam antigas rotas de tropas que ligavam Goiás a Salvador e ao Rio de Janeiro, encontrando na comunidade um refúgio seguro para reconstruir suas vidas.

Da união entre os primeiros habitantes e aqueles que chegaram posteriormente surgiram quatro grandes troncos familiares, dos quais descendem praticamente todas as cerca de 1,2 mil famílias que vivem atualmente no Quilombo Mesquita, segundo Neres.

Mais de 250 anos depois, a comunidade mantém vivas tradições que atravessam gerações. A produção artesanal de marmelo, reconhecida como um de seus maiores patrimônios culturais, convive com casarões, ruínas e construções históricas que preservam a memória do período colonial e da escravidão. O território também atrai visitantes, especialmente do Distrito Federal, interessados em suas cachoeiras, trilhas e na riqueza de sua história.

Em 2025, o Quilombo Mesquita conquistou uma de suas mais importantes vitórias. A Justiça Federal reconheceu os direitos territoriais da comunidade e determinou a regularização fundiária da área, fortalecendo a proteção de um patrimônio histórico, cultural e humano que permanece como parte fundamental da história da região onde, séculos depois, surgiria Cidade Ocidental.

Fé, cultura e tradição

No Quilombo Mesquita, a história e a cultura têm o sabor do marmelo. Há mais de dois séculos, o fruto é o principal símbolo da comunidade, dando origem à tradicional marmelada artesanal e inspirando uma das festas mais importantes da região, além de uma das corridas de rua mais conhecidas do Entorno do Distrito Federal.

O cultivo do marmelo e a produção da marmelada remontam ao século XVIII, quando a fruta foi introduzida pelos colonizadores. Desde então, o doce continua sendo preparado de forma artesanal, em grandes tachos de cobre, mexido lentamente com colheres de pau durante horas, preservando um modo de fazer transmitido de geração em geração.

A colheita do fruto é celebrada todos os anos com a tradicional Festa do Marmelo, realizada em janeiro. Em 2026, o evento chegou à sua 24ª edição, entre os dias 9 e 11 de janeiro, reunindo moradores e visitantes em uma programação que inclui missas, cavalgadas, almoço comunitário, leilão e apresentações musicais. Mais do que uma celebração da safra, a festa reforça a identidade cultural e o sentimento de pertencimento da comunidade.

Da tradição do marmelo também nasceu um evento esportivo. A Corrida do Marmelo foi criada em 2000 (fotos abaixo) com o objetivo de arrecadar recursos para a construção da Igreja de Nossa Senhora da Abadia, além de incentivar a prática esportiva e divulgar a produção da marmelada artesanal.

No livro Cidade Ocidental contada pelos seus pioneiros – Volume II, o ex-prefeito Fábio Correa, idealizador da prova, relembra as dificuldades da primeira edição. “Não tínhamos recursos, tanto que a camiseta usada pelos competidores foi a mesma da Folia de Nossa Senhora da Abadia”, conta. Ele também destaca a contribuição do maratonista Paulo César e do protético Lisvaldo, falecido em 2014, personagens fundamentais para o crescimento da competição. A edição da Corrida do Marmelo de 2000 foi o marco da competição que, anos depois, em 2006, passou a ser realizada anualmente no município de Cidade Ocidental, tendo Fábio Correa como precursor da disputa.

Ao longo dos anos, a Corrida do Marmelo consolidou-se como um dos principais eventos esportivos da região. Integrante do calendário oficial de Cidade Ocidental, a prova é conhecida como “a corrida mais charmosa do Entorno de Brasília” e realizou sua 19ª edição, em 2026.

19ª Corrida do Marmelo, realizada em 2026.

Além da produção da marmelada, as mais de mil famílias que vivem no Quilombo Mesquita preservam outras tradições ligadas à agricultura familiar, produzindo farinha de mandioca artesanal, polvilho e rapadura. A comunidade também mantém viva a devoção a Nossa Senhora da Abadia. A igreja dedicada à padroeira é o centro das celebrações religiosas e da tradicional Folia de Nossa Senhora da Abadia, que em 2026 chegou à sua 77ª edição, reafirmando uma herança cultural e religiosa preservada ao longo das gerações.

76ª Folia de Nossa Senhora da Abadia